Gonçalves Ledo era dotado de envergadura especial para a luta. Dispunha de coragem indomável. Possuía o espírito combativo dos que se servem da tribuna e da imprensa para defender um ideal. Era um intemerato, de ardoroso entusiasmo nas refregas e nos comícios. Tinha a capacidade dos condutores de homens.
Foi tão impetuosa a ação que ele desenvolveu na propaganda da independência, que alguns autores, entre os quais Assis Cintra, consideram-no o principal fautor do movimento patriótico e liberal.
Sem a função dos excitadores, não teríamos alcançado tão prontamente o resultado da aspiração nacional. Mas José Bonifácio não poderia exercer essa função. A sua atitude devia ser, como foi, serena, prudente e refletida, para conseguir a vitória incruenta, mais de habilidade e diplomacia, do que de audácia e luta.
Não estão, ainda, bem estudadas as figuras primazes dos propagandistas. A biografia de Gonçalves Ledo está por fazer. Não propriamente a história da sua vida, da infância à morte, mas a psicologia do herói, o temperamento do agitador, as circunstâncias de sua ação enérgica e contínua. A mesma necessidade se verifica em relação a Januário da Cunha Barbosa, a Frei Francisco de Jesus Sampaio, a José Joaquim da Rocha, a Luís Pereira da Nóbrega e a outros corifeus e paladinos da causa nacionalista.
Embora tentado a fazê-lo, não posso ocupar-me dessa agradável missão, nem é cabível nesta obra estudo de tal desenvolvimento.
Contento-me em mencionar os dados conhecidos da biografia dos intelectuais que co-participaram no movimento da independência.
Gonçalves Ledo partiu para Coimbra com a idade de 14 anos, para completar os estudos secundários e fazer o curso jurídico. Matriculou-se na universidade e, terminado o curso humanístico, teve de interromper os estudos, quando a morte do pai o surpreendeu e obrigou a regressar à pátria.
Tencionou administrar os negócios da casa paterna, mas sentiu–se seduzido pela continuação da vida intelectual.
Aos 39 anos de idade, em 1820, era empregado na Secretaria do Arsenal de Guerra. Ignora-se o que fez antes.
No ano imediato começou a desenvolver a campanha sistemática e ininterrupta em prol da emancipação política do nosso país. Tanto na tribuna como na imprensa, bateu-se pela autonomia do Brasil.
Gonçalves Ledo era um dos eleitores de paróquia, que se reuniram, antes da partida de D. João VI, a fim de serem escolhidos os eleitores de comarca, encarregados de eleger os deputados às cortes portuguesas.
Já se notava efervescência no Rio de Janeiro, em conseqüência da agitação que se operava na Bahia. Houve, portanto, tumulto na assembléia eleitoral, reunida no edifício da Praça do Comércio, repercutindo o alarido no povo que se aglomerou nas imediações do edifício. Exigia a multidão que fosse provisoriamente adotada a constituição espanhola, antes de ser promulgada a portuguesa, em Lisboa.
O edifício foi cercado por força militar e expulsos os cidadãos que estavam reunidos no recinto. Houve mortos e feridos.
Ledo, que tomara parte ativa no comício, ocultou-se por algumas semanas, a fim de escapar a qualquer perseguição das autoridades portuguesas.
Após a partida da família real para Lisboa, recrudesceu o fermento de desordem e precipitaram-se os planos da independência. Formaram-se os partidos: o dos lusitanos, que pretendia reconduzir o Brasil a colônia: o dos republicanos, o dos absolutistas e o monárquico constitucional, com apoio do príncipe regente. O último contava com a maioria.
Ledo e Cunha Barbosa, filiados ao mesmo partido, fundaram o "Revérbero Constitucional" e desenvolveram campanha ativa, sem desfalecimento.
A 9 de janeiro de 1822 dirigiram ao príncipe a representação popular, pedindo-lhe que ficasse no Brasil.
Por decreto de 16 de fevereiro o príncipe regente convocou os procuradores gerais para se reunirem a 1.° de junho, a fim de assentarem as medidas reclamadas pela situação política do país. Ledo foi um dos eleitos pelo Rio de Janeiro.
Juntamente com J. M. Azeredo Coutinho e Lucas José Obes, também eleitos, Ledo propôs que se dirigisse uma representação ao príncipe, pedindo a convocação de uma assembléia legislativa constituinte.
Proclamada a independência, manifestou forte oposição ao ministério dos Andradas e, para não ser preso e deportado, refugiou-se e embarcou, disfarçado em frade, em um navio que o conduziu para Buenos Aires.
Depois da dissolução da Constituinte e da deportação dos Andradas, voltou Ledo ao Rio de Janeiro e foi eleito por sua província natal deputado à assembléia geral, na l.a e 2.a legislatura. Na Câmara, onde gozava de consideração, proferiu alguns discursos muito apreciados e foi escolhido para membro das mais importantes comissões, como a de fazenda.
Terminado o período de agitação, a sua atitude calma desgostou o partido liberal e Ledo sentiu declinar a sua popularidade, sendo até acremente censurado pela imprensa. Não foi reeleito para a 3." legislatura, mas em 1835 elegeram-no, os patrícios, membro da assembléia provincial do Rio de Janeiro, sendo reeleito nas duas legislaturas seguintes.
Figurou por duas vezes era listas senatoriais, sendo preterido, o que lhe causou profundo desgosto. Farto da vida política e vítima da deslealdade de amigos e correligionários políticos, retirou-se para a sua fazenda do Sumidouro, em Macacu, onde faleceu a 19 de maio de 1847. O seu corpo foi transportado para a cidade do Rio de Janeiro, onde foi sepultado.
Fazia parte do conselho do imperador, de quem se mostrou amigo; era comendador da ordem de Cristo e dignitário da ordem do Cruzeiro.
Distinguiu-se como orador fluente, jornalista de combate e principal inspirador de todas as grandes manifestações populares, tendentes à proclamação da independência do Brasil.
Comentários
Postar um comentário